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Enviado por Valter Cassalho   
Qua, 24 de Março de 2010 00:00
QuaresmaCIDADE DO INTERIOR REALIZOU ENCONTRO SOBRE MULHERES QUE LAMENTAM A MORTE DE CRISTO.

 

Este foi o sétimo de um encontro sui-generis na pequena cidade de Joanópolis interior de São Paulo. Preocupados com o fim da tradição das mulheres que cantam e choram na sexta-feira da Paixão, o Núcleo de Folclore Pé da Serra que envolve a região de Atibaia (sob coordenação do prof. Valter Cassalho e Lilian Vogel), realizaram o Primeiro Encontro de Verônicas na cidade de Piracaia em 2002, chamando a atenção para manutenção destas mulheres que vestidas de preto desenrolam o sudário e cantam os lamentos diante do esquife do Senhor.

Acontece que tais mulheres só cantavam uma vez no ano, no mesmo horário e em cidades diferentes, portanto, nunca se viam ou ouviam-se. Após este primeiro encontro, a cada ano foi realizado um encontro em uma cidade da região, valorizando as antigas, incentivando as que haviam parado a voltarem ao oficio e iniciando novas cantoras nesta antiga tradição. Com este trabalho, praticamente a tradição se fortaleceu na região. Outras regiões como Vale do Paraiba e diversas cidades do Brasil em especial as interioranas mantém ainda a personagem fúnebre acompanhadas de três mulheres cobertas de preto (Marias Beús) que seguem o caixão do Senhor Morto a lamuriar em latim a morte do Salvador.

Reuniram-se este ano na igreja matriz de São João Batista em Joanópolis centenas de pessoas, entre alunos do Curso de Folclore do Ponto de Cultura Ora Viva São Gonçalo, convidados, fiéis, e pessoas interessadas nesta antiga tradição. Quatorze Verônicas de várias cidades da região compareceram e nos entre meios das palavras do palestrante, cantaram, lamuriaram e desenrolaram o sudário com a Santa Face do Senhor. O evento contou com a participação do Coral do Melhor Idade daquela cidade que abriu e abrilhantou o evento com um cântico a Santa Face.

HISTÓRICO: O cântico triste da personagem Verônica na Sexta-feira da Paixão está presente, principalmente no Vale do Paraíba e região Bragantina, onde criou forças e atravessou séculos de existência. Cantando em latim o verseto 12 de Lamentações de Jeremias (Lamentações l2:1), esta curiosa personagem vestida de preto, desenrola o sudário com o rosto de Jesus em frente ao esquife do Senhor na Sexta-feira da Paixão. Seu curto e lamentoso cântico somente pode ser apreciado uma vez ao ano e sua intérprete orgulha-se de poder faze-lo chegando a exercer por décadas este honroso ofício.

De acordo com o pesquisador dr. José Geraldo de Souza, em seu estudo intitulado "O Plangente Canto da Verônica no Vale do Paraíba", nos Atos Apócrifos de Pilatos, designavam este pano por Berônica, Bernice ou Berenice. Destas formas originou-se "Verônica" derivada de raízes etimológicas grega e latina formando "VERA EICÓN" = VERDADEIRA IMAGEM, sendo este termo de uso bizantino a partir da Idade Média. Portanto o nome Verônica diz respeito ao tecido, no qual estampou-se o rosto de Cristo e mais tarde passou a designar a personagem que teria enxugado o rosto do mesmo, estando imortalizada na Sexta-Estação dos quadros da via-sacra de todo o mundo. Tida ainda como patrona dos fotógrafos.

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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