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COELHO DA PÁSCOA E O CURUPIRA - O ARREMATE DA PELEJA | Estância Turística de Joanópolis - SP

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COELHO DA PÁSCOA E O CURUPIRA - O ARREMATE DA PELEJA
Folclore
Enviado por Valter Cassalho   
Dom, 01 de Abril de 2012 16:30
Bom, como ia dizendo na blogada abaixo...

"É bom botar logo esse ovo de chocolate senão eu desço o cacete".

O coelho viu que não ia ter jeito. Deu um pulinho de lado, agachou ao lado da cesta e começou o serviço de botar ovo.

Fazia cara de esforço. O olhinho do coelho fechava e seu nariz franzia. O curupira só olhava. Até que o coelho reclamou:

"Assim não dá! Com você me encarando desse jeito não consigo".

"É que nunca vi coelho botar ovo que nem galinha".

"Boto sim senhor, mas desse jeito você está me estressando".

"Estre... o quê?"

"Estressando, estressando, me tirando do sério, deixando com o sistema nervoso!"

O coelho foi se irritando e deu um pulinho para o lado.

"Não adianta, assim eu não consigo".

"Então dá o fora antes que eu perca a paciência e te dê umas cacetadas, que o senhor é um grande mentiroso!"

"Mas você nunca ouviu falar de mim? Eu não posso acreditar, eu sou o coelho da páscoa!!! Um dos seres mais fantásticos e mara..."

"Tá bom, tá bom, já ouvi esse papo. Aqui na mata já vi unhudo, saci, mapingüari, mboi tatá, um tanto de gente, ou bicho, diferente, mas coelho que diz que bota ovo é a primeira vez."

"Mas o senhor sabe com quem está falando? Eu sou o coelho da Pás-co-a!"

"Peraí, e você, sabe com quem está falando?"

"Ah, desculpa, quem é o senhor?"

"O Curupira".

"Rá, eu conheço. O senhor é uma lenda, mas eu trago ovos de chocolate para as crianças mostrando a ressurreição de Cristo. Isso é história, meu amigo!"

Tuuuuum! De novo o curupira desceu o cacete, dessa vez bem perto do coelho que se encolheu todo assustado. E o menino do pé-virado disse:

"Lenda, ora essa! Eu, lenda? Há quanto tempo o senhor está por aqui? Duzentos anos, quanto? Cala a boca, coelho, eu fiz essa terra, moro aqui desde o começo dos tempos. Protejo a mata e dou cacetada em quem judiar de passarinho. Conheço cada tipo de pau, cipó, formiga, cobra ou onça. Tem mais, tem mais, conheço todas as tribos de índios brasileiros e suas histórias. Mando nesse mata há tanto tempo e você vem com essa conversinha? Ah, não."

Ficou um silêncio. O coelho coçava o bigode com suas patinhas e balançava a cabeça afirmativamente. O curupira até simpatizara com aquele coelhinho que trazia ovo para alegrar a criançada, então procurou ficar calmo. Até que o coelho pigarreou e falou:

"Éééé, curupira... acho que o senhor tem razão. Mas não vou conseguir botar. Posso ao menos entregar meus ovos?"

"Pode, claro. Mas vê se não suja o chão com essa papelada colorida."

"Tá bom, vou pedir para as crianças. Adeus".

O curupira vendo aquele coelho pulando e carregando sua cestinha, com o pêlo branquinho e todo molhado, até que achou graça. Lembrou-se do tamanho de ovo que o tal carregava e começou a resmungar:

"Já vi cobra virar gente e gente virar cobra; um homem tirar a roupa, deixar tudo arrumadinho, mijar em cima e virar lobisomem; vi a mulher do padre transformada em mula, depois dar coice e soltar fogo pela boca, mesmo sem ter cabeça; ah, já vi coisa demais... agora, sair ovo gigante de um coelho tão pequeno. Ora, isso não, ovo assim carece de ter espaço para aflorar. Esse povo estrangeiro pensa que pode enganar a gente só porque semo caipira".

Então entrou dentro do oco de uma árvore. E arrematou:

"Semo caipira mesmo, com muita honra. E como diz o Zé Mulato: Semo porque semo e também porque queremo!"

Boa páscoa pra vocês...

Escrito pelo violeiro - Paulo Freire (da Associação dos Criadores de Sacis)

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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