| O Diabo na Garrafa |
| Folclore |
| Enviado por Valter Cassalho |
| Qua, 25 de Março de 2009 22:55 |
Com a nova exibição da novela PARAÍSO, a qual é uma regravação e adaptação da telenovela de mesmo nome exibida no horário das 18 horas pela Rede Globo entre 1982 e 1983, escrita por Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Gonzaga Blota, volta a tona alguns comentários curiosos do nosso mundo caipira, entre eles o tal DIABO NA GARRAFA, que uns dos personagens diz possuir.
Este causo ou este mito é bem difundido no Brasil e fora dele, chamado diabinho da garrafa, cramulhão e até de famaliá (vem de familiar ou diabinho familiar ou doméstico). Consiste numa herança portuguesa e dele se tem noticia no Brasil, desde o século XVI. Bem, como estamos na Quaresma, época propicia para ter o seu cramulhãozinho, transcrevo abaixo um dos causos do meu livro HISTORIAS DO ARCO DA VELHA, para explicar como se deve proceder. COMO ENGARRAFAR O DIABOMané do Lopo era um homem avarento, sempre preocupado em enriquecer, porém, sem muito esforço, é claro! Não era muito católico, as vezes aparecia na missa e na porta da igreja gostava de contar vantagens. Certo dia, ele conheceu nhô Ambrosio, benzedor famoso e curador, residente numa cidadezinha no sul de Minas; e Mané ficou maravilhado com os "causos" de pessoas que possuíam um diabinho dentro da garrafa, tendo o dito cujo como seu escravo a fazer muita arte e procurar tesouros escondidos. Foi o que bastou, Mané do Lopo, de cor e salteado, sabia passo a passo como engarrafar o diabo, e lá estava ele numa sexta-feira da quaresma com a mão aparada em baixo de uma galinha preta esperando o ovo cair. O que não tardou e num salto de alegria, rápido e rasteiro, acomodou o ovo debaixo do sovaco esquerdo, lugar que o mesmo ficaria por vinte e dois dias a fio. Neste período Mané do Lopo, dormia sentado com medo de quebrar a preciosidade, banho nem pensar! Os amigos notaram que Mané desaparecera, a casa vivia fechada, quando batiam á porta ele ficava em total silencio. Morto não estava, pois os vizinhos as vezes viam a chaminé da casa fumegar. O que estaria aprontando desta vez? Questionavam todos. Passado os vinte e dois dias, Mané sentiu algo estremecer dentro do ovo, colocou-o contra luz e viu uma pequenina forma avermelhada no interior. Seus olhos brilharam, era chegada a hora, imediatamente pegou uma garrafa, quebrou a ponta do ovo e colocou na boca da garrafa e proft!!, algo escorregou para o interior. Quando olhou, era um simpático diabinho, vermelho, olhos grandes e uma boca pequena a sorrir de forma maliciosa. Emocionado Mané quase chorou, rapidamente fechou a garrafa com uma rolha e nela com um canivete desenhou uma cruz. A noite a garrafa ficava iluminada num tom vermelho vivo, com treze dias de vida, o bicho já falava de tudo, inclusive palavrões. Pactuaram então que, em troca de sua liberdade o bichinho deveria servi-lo por sete anos, após o que estaria finalmente livre. Quando fora da garrafa, o diabinho tinha um metro de altura, voava, fazia predições e tudo mais, porém, somente Mané conseguia enxergá-lo. Durante o dia ele entrava na garrafa e ficava quietinho, como um bom menino, a noite... A noite saía, aprontava todas as traquinagens possíveis, escondia animais, talhava leite, dava nós em roupas, apagava os fogões-a-lenha, assustava pessoas, etc. Alguns diziam que era saci, outros procuravam o padre com medo de ser o coisa-ruim. Mané do Lopo, nada dizia para não levantar suspeitas, porém, numa madrugada foi levado a uma fazenda antiga e lá seguindo as instruções do diabinho começou a cavar, encontrou uma arca cheia de ouro a qual rapidamente levou para sua casa. Passado alguns meses, todos comentavam a mudança de Mané. Roupas novas, reforma na casa, gado da melhor raça, até charuto fumava. A origem da riqueza de Mané era papo predileto nas barbearias e nas rodas de comadres, uns falavam em roubo, outros em herança, outros em pacto com o diabo e assim por diante. Quando indagado, Mané respondia que era herança de um tio e já mudava o rumo da prosa. Assim passaram-se os anos, Mané na opulência e o diabinho na garrafa. Quando chegou o sétimo ano, Mané ficou desesperado, já estava acostumado com sua presença, suas travessuras, seus maus modos, etc. Num dia, enquanto ele entrou na garrafa, Mané rapidamente tapou a garrafa com a rolha, impedindo assim que o mesmo fosse embora, porém, ele ficou muito triste, chorava, nada falava e dia após dia seu brilho diminuía. Comovido Mané do Lopo, não agüentou e soltou seu companheiro. Chorando, pela décima vez se despedia do dito cujo, abraçava-o, pedia para que ficasse. Parecia que a tristeza era recíproca, pois o diabinho também gostava de Mané. Depois desse dia, ninguém nunca mais viu Mané do Lopo, a casa fechada, nada de fumaça na chaminé, sumira, temendo que estivesse morto, arrombaram a porta e nada acharam, senão uma garrafa quebrada e um estranho pó vermelho no chão. Para onde foi Mané do Lopo? Até hoje ninguém sabe, nunca mais apareceu. Ficou a casa, o gado, roupas, ficou tudo intacto, chamaram a família e esta apoderou-se dos bens. Ninguém nunca mais soube do Mané do Lopo, sumiu... e quando falam dele, fazem o sinal da cruz, e dizem que tudo isso são histórias do Arco da Velha. Tomara!!!!!! |