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Centenário da Morte de Bruna Caparica Filha | Estância Turística de Joanópolis - SP

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Centenário da Morte de Bruna Caparica Filha
História
Enviado por Valter Cassalho   
Seg, 15 de Dezembro de 2008 11:05
Viveu como um efêmero sorriso. Murchou, como uma flor desabrochando, Colibri, que deixa o ninho, quando, Apenas lhe doirava a boca, um riso! Tinha, do lírio, a palidez na face, Tinha na face, a palidez do lírio! (Lírio I - prof. Sérgio Ribeiro cc.1930)

14/12/1908 - 14/12/2008

Em 1872 chegava em definitivo para residir no bairro do Curralinho do então município de Santo Antonio da Cachoeira, os recém casados Anselmo Caparica e Bruna Figueiredo, filha do ilustre Luiz Antonio Figueiredo e de Maria Escolástica de Ornellas. O casal estabeleceu-se nas terras do sogro, nascendo ali os seguintes filhos: Otilia, Gerôncia, Evilasio, Benedita, Bruna, Orestes, Maria, Antonia e Joaquim. A menina Bruna nasceu em 1885 e recebeu em homenagem à mãe o nome de Bruna Caparica Filha, herdando a inteligência e vivacidade dos Caparica, a audácia e fibra dos Figueiredo. Trazia no sangue as mais antigas raízes das famílias curralinhenses, nobreza portuguesa e bandeirante.Ao concluir idade foi estudar no tradicional Colégio de Nossa Senhora do Bom Conselho, no município de Taubaté, onde permaneceu por nove anos, vindo somente nas férias para conviver com a família e sua terra natal. Como todos os seus irmãos era conhecedora de música tornando-se excelente pianista, chegando mesmo a dar aulas deste instrumento no referido colégio.Pelas suas opiniões em crônicas, fica evidente que Bruna era uma mulher à frente de seu tempo, assim como fora seu pai, o republicano histórico da região; com isso ficava claro que não era uma mulher destinada ao lar e aos afazeres domésticos. Na casa de seu pai e de seu tio (Coronel Figueiredo), as reuniões políticas curralinhenses aconteciam e com certeza deve ter ouvido muito e quem sabe, até opinado nelas.

Neste ínterim, entre a vida do colégio e as férias na pequenina cidade, com seus saraus e sonhos de adolescente, cresceria a jovem e imponente Bruna, a filha. Na festiva virada do século em 1901, tornara-se a professora Bruna, a primeira curralinhense do novo município a se tornar educadora. Com seus florescentes anos demonstrava excelentes conhecimentos e dom para a educação, lia muito, inclusive Chateaubriand, falava francês, escrevia bem e convivia com os intelectuais da época.

A professora Bruna Caparica auxiliava seu cunhado Antonio Ferreira de Almeida no Jornal O Munícipe, transcrevendo matérias e escrevendo crônicas para jornais do Curralinho e outras cidades. Sua inclinação para a educação levaria a formar uma escola particular mista no ano de 1902, firmando-se como educadora. Foi a primeira mulher no município a exercer este cargo em caráter particular, com a inovação de estudarem na mesma sala meninas e meninos. Neste período as escolas do Governo eram divididas por gênero, a primeira cadeira do sexo masculino foi criada em 1833, a feminina em 1895, porém a mesma não foi ocupada por muitos anos, haja visto que a cadeira assumida por Eugenia Martinessi, ficou sem professora até 1907. O comum era a contratação de professores particulares junto às fazendas, sendo toda preferência dada ao sexo masculino e obviamente às famílias de posses. Bruna Caparica Filha demonstrava intensa preocupação com a situação, defendendo a extensão do ensino as mulheres, haja visto que em sua escola de 1902, entre seus mais de 30 alunos, havia a presença maciça de meninas em relação aos meninos. Entre seus alunos destacavam-se seus sobrinhos: a futura conceituada educadora Adilia Ferreira de Almeida e o ilustre Almeida Júnior (que seria anos mais tarde Secretário da Educação do Estado de São Paulo).

Em 09 de julho de 1903 graças aos seus esforços, a Câmara Municipal decretou uma Lei criando uma Escola Municipal para o sexo feminino, com 25 alunas matriculadas, sendo a cadeira provida pela jovem professora Bruna. Assim referiu-se um jornal da época: "Foi este um dos melhores actos de nossa municipalidade, porquanto até esta data não se pôde conseguir que a cadeira aqui existente e creada pelo governo fosse provida". Portanto, isso prova em definitivo que a PRIMEIRA PROFESSORA, a primeira mulher neste município a exercer o cargo educacional para o sexo feminino foi BRUNA CAPARICA FILHA, a qual já possuía desde o ano anterior uma escola particular mista. Graças a esta escola particular e ao seu trabalho, conseguiu a criação de uma escola pública municipal para as mulheres.

A professora continuava seu árduo trabalho, educando os jovens, conscientizando os pais, divulgando seus pensamentos aos leitores. No dia 16 de dezembro de 1903, realizaram-se os primeiros exames da escola municipal do sexo feminino, sendo algumas alunas levadas a uma mesa examinadora, composta por influentes cidadãos, sob a presidência de José Cândido de Campos, presidente da Câmara Municipal. Esta era a prova de fogo da professora, ver seu trabalho avaliado, pela primeira vez, perante a municipalidade. Imagino a agonia e tensão da professora neste instante, bem como a satisfação a cada resposta das suas queridas alunas que obviamente não a decepcionaram no seu laborioso empenho. Apesar de toda essa vivacidade e atividade, a saúde da professora era frágil. Desde 1907 Bruna não parecia ser a mesma, gripes constantes, febres, tosses, o fantasma que atemorizava muitas pessoas da época e também sua família fazia-se presente, logo perceberam que os sintomas eram os mesmos de sua falecida irmã Gerôncia. A tuberculose, a doença do século, fazia-se presente em mais uma jovem. Medicamentos, tratamentos, orações, viagens, tudo em vão. A segunda metade de 1908 foi um triste momento para a família; sem esperanças de cura, necessitando cuidados redobrados, Bruna piorava a cada dia. No dia 13 de dezembro prevendo o fim próximo, pediu seu pequeno diário, o qual havia comprado na estação de trem em Bragança em uma de suas viagens, nele escreveu suas ultima palavras: "É chegado meu último momento. Aprouve ao céu privar-me da grande consolação deste lar. Meu derradeiro suspiro na terra que tanto amei. A minha morte não é uma fatalidade ou uma desventura. Não quero que minha família se entregue ao desalento. É preciso..."(aqui ela exausta interrompe seus escritos). Horas depois, já na madrugada do dia 14, por volta da uma e meia, a agonizante Bruna Caparica Filha entrega sua alma a Deus, enlutando todo o município. Imediatamente a noticia foi propagada, a casa amanheceu rodeada de amigos, principalmente muitos jovens. Nem o temor da terrível doença impediu que a população comparecesse em massa para render suas homenagens. Após o velório, o corpo foi carregado por moças vestidas de branco e empunhando coroas de flores naturais. O longo cortejo era composto por políticos, familiares, representantes de jornais, amigos, conhecidos e pranteado pelos seus alunos. No cemitério, ao baixar o corpo, foi proferido pelo professor normalista, Jayme Candelária um belíssimo discurso. Assim encerrou-se a vida de uma ilustre joanopolense, que no inicio do século XX, numa sociedade paternalista e machista, conseguiu inovar e concretizar seus objetivos.

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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