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Ciganos - O Espírito Livre de um Povo
História
Enviado por Valter Cassalho   
Qui, 30 de Abril de 2009 18:16
bandeiraciganaA Festa das Nações em Joanópolis deste ano conta com uma novidade, a presença do Grupo ESPIRITO GITANO, ou seja um GRUPO DE CIGANOS, que há alguns anos tenho acompanhado pelos Revelando São Paulo como membro da Comissão Paulista de Folclore. Difícil não se encantar com esse povo, que mantém tão vivo suas tradições, costumes e a sua eterna áurea mística. Presentes em nossa cidade, talvez desmistifiquem um pouco a idéia negativa ou preconceituosa que se tem dos mesmos, e muitas das vezes oriundas de pseudo-ciganos que passam pela nossa região.

Falar deste povo é um prazer, porém uma tarefa difícil, não só por eu ser um gadje (não cigano), mas também devido a ausência de uma história escrita, onde pesquisadores há séculos se debatem na origem e tempo do povo chamado de ROM (plural roma). A maioria dos antropólogos culturais trabalham com a origem indiana, baseados em evidencia lingüísticas e genéticas.

Fora dos meios acadêmicos o que se têm são idéias que cristalizaram ao longo do tempo, em especial nos séculos XIV e XV e na maioria delas de forma muito preconceituosa, daqueles que vêem a história de um povo do lado de fora e não de dentro.

Baseia-se hoje que os roma, são originários do norte da Índia e imigraram para Pérsia, Grécia e atingiram a Europa enquanto outros imigraram para a Síria, Egito e Palestina. Pela falta de uma pátria precisa (pois o cigano tem sua pátria dentro de si mesmo), costumes e tradições diferentes, inventaram-se muitas lendas sobre os mesmos, e foram perseguidos, expulsos, mortos, condenados e escravizados por onde passaram, mesmo assim resistiram e continuam com sua cultura viva, dinâmica e encantadora, mantendo sempre no país em que estão a sua identidade cultural. Mesmo na atualidade, vale lembrar que duzentos a quinhentos mil ciganos europeus foram exterminados nos campos de extermínio nazistas.

Os ciganos chegaram ao Brasil no século XVII, como degredados ou enviados de Portugal para trabalhar como ferreiros e ferramenteiros. Os do grupo Kalon (Espanha e Portugal), foram os primeiros a chegar, seguidos mais tarde pelos horaranô (das terras turcas) e kalderash (Romênia e antiga Iuguslávia).

Apesar de não terem uma pátria e estarem espalhados pelo mundo, eles formam uma etnia, dividida em clãs, possuem unidade lingüística o romani ou romanês, que é a língua do povo. Possuem também uma bandeira composta de três cores, o azul que representa a liberdade (pois todo cigano é livre), o verde representa a Natureza (o chão que o cigano caminha), e ao centro uma Roda Vermelha, que representada a roda da carroça (com a qual os ciganos percorrem o mundo).

São devotos em sua grande maioria de Santa Sara Kali, a qual segundo a lenda Maria Madelena, Maria Jacobé (mãe do Tiago menor) e Maria Salomé (mãe de São João), devido as perseguições contra os cristãos foram jogadas ao mar, numa barca sem remos acompanhadas tão somente de uma das escravas de José de Arimatéia, Sara, a kali (Kali em romani, quer dizer negra). Desesperadas, as três Marias puseram-se a orar e a chorar e Sara retira o diklô (lenço) da cabeça, clama por Cristo e promete que se todos se salvassem ela seria escrava de Jesus, e jamais andaria com a cabeça descoberta em sinal de respeito. Milagrosamente, a barca sem rumo e à mercê de todas as intempéries, atravessou o oceano e aportou com todos salvos em Petit-Rhône no sul da França, onde hoje se encontra a igreja de Santas Marias Vindas do Mar, um lugar de peregrinação e de culto a Santa Sara Kali, que foi quem converteu os ciganos para o cristianismo, onde são depositados vários lenços em agradecimento as muitas graças alcançadas pelos ciganos e pelos gadje a Santa Sara Kali.

Bem, aqui está apenas um pequeno pedaço resumido da história milenar dos Rhoma, chamados também de gitanos, ciganos, zíngaros, gypsies, de acordo com o país por onde passaram. E que nesta passagem por nossa cidade possam eles nos ensinar a conviver melhor com a diversidade cultural de todos os povos e cultivar as sementes da Paz.

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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