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Os mistérios da Verônica
História
Enviado por Valter Cassalho   
Seg, 06 de Abril de 2009 01:08

veronica02Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede, se há dor igual a minha, que veio sobre mim. (Lamentações de Jeremias - 1:12)

Sexta-feira Santa, a matraca assinala a saída da procissão, seguem a frente um crucifixo ladeado de luminárias e castiçais, logo atrás a grande massa de fiéis, onde um esquife todo ornamentado traz a imagem do Senhor Morto; sobre o esquife um dossel roxo. Assim que o esquife do Senhor chega a rua, na escadaria aparecem quatro vultos de preto, todas com véu e três coroadas de espinhos, a quarta mulher sobe em uma banqueta e começa um canto triste desenrolando um pedaço de pano, um pergaminho onde está estampado o rosto de Jesus. Findo o canto, a procissão inicia seu triste cortejo. Em alguns pontos a mulher de preto volta a cantar tendo por coro os vultos coroados de espinhos e por fim antes que as imagens entrem na igreja faz sua última apresentação e se recolhe; é a Verônica que acompanhada das Marias Beús desaparecem no interior da igreja. Esta tradição se espalha por quase todo o Brasil, em especial Vale do Paraíba e Sul de Minas Gerais.

Mas, o que existe por trás desta personagem vestida de preto, no meio da multidão? Quem foi este ser de luto eterno a vibrar a voz num pranto constante no alto da escadaria?

Segundo o pesquisador Padre dr. José Geraldo de Souza, em "O Plangente Canto da Verônica no Vale do Paraíba", (Folclore Guarujá-SP, agosto/1991 nº 16), nos Atos Apócrifos (não autênticos) de Pilatos, designavam este pano por Berônica, Bernice ou Berenice. Destas formas originou-se "Verônica" derivada de raízes etimológicas grega e latina formando "VERA EICÓN" = VERDADEIRA IMAGEM, sendo este termo de uso bizantino a partir da Idade Média. Portanto o nome Verônica diz respeito ao tecido, no qual estampou-se o rosto de Cristo e mais tarde passou a designar a personagem que teria enxugado o rosto do mesmo.

veronica01Por volta do século XII, Pedro di Nallio, comenta sobre uma antiga tradição, na qual Jesus permitiu a impressão de seu rosto em um lenço de linho chamado Sudário (da raiz latina sudorem - suor) no momento do encontro com as piedosas mulheres de Jerusalém (Seguia-o numerosa multidão de povo e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam - Lucas 23:27). Deste linho (verônica ou sudário) foram feitas diversas cópias, como a da Basílica de São Pedro (Roma), da Biblioteca Nacional de Paris, da Igreja de São Bartolomeu dos Armênios (Gênova-Itália) e o da Igreja Del Gesú em Roma, venerado desde os tempos de Gregório XV (1621-1623). Todavia, já existia na Basílica de Roma, uma edícula destinada a relíquia, feita pelo papa João VII (705-707), a qual foi destruída em 1606, sendo erigido outro nicho logo em seguida. A cópia atual na tribuna da cúpula de São Pedro, foi posta em 21 de maio de 1606, estando em uma urna de prata, protegida por lâminas de cristal e véu de seda.

De acordo com o cronista Grimaldi, o sudário foi entregue por testamento a Clemente I, por volta do ano 92 a 101, porém o mesmo estava em Roma desde o ano 34. Conta-se ainda que o Imperador Tibério foi curado de lepra através desta verônica (verdadeira imagem) de Cristo. Atribui-se ao Papa João XXII (1316-1334) o hino "Salve Sancta Facies" (salve santa face) consentindo indulgência a quem o recitasse olhando para ao sudário.

Na matéria "O Canto Religioso no Brasil "(Folclore 1988, nº 13, pag. 27) o autor acima citado, ressalta a veneração da Verônica na Sexta Estação da Via Crucis, numa viela da atual Jerusalém percorrida por todos os peregrinos. Além disso, cita a existência de um monumento de mármore na Basílica de São Pedro, retratando a personagem com o sudário e a inscrição de S. Verônica de Jerusalém.

A citação da Verônica está presente não apenas em textos religiosos, o próprio Dante Aligheri em "A Divina Comédia" (1307 e 1313) faz citação sobre ela ou ainda Francisco Petrarca (1304-1374) também a cita no "Canzoniere". O padre José Geraldo de Souza (primeiro doutor em musicologia do Brasil) ainda comenta que a Verônica é considerada a Patrona dos Fotógrafos, pois conseguiu moldar em uma chapa (lenço de linho) os traços fisionômicos de Jesus.

A Verônica representa a compaixão, a piedade, a comoção, o amor para com o próximo. Talvez esta representação seja ainda muito necessária num mundo tão individualista em que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio. Talvez precisamos deste exemplo de amor e compaixão, para que possamos enxugar o nosso próprio rosto para delinearmos melhor o nosso caminho e quem sabe ao fazermos isso nele não estará estampado a Verdadeira Imagem, ou seja, o semblante do nosso Criador.

Transcrição do Canto da Verônica de Joanópolis-SP (cone leste Paulista)

Ó vós omnes, qui transitis per viam (O vós todos que transitam pela via),

Attendi-te et videte (atente e veja),

Si est dolor, similis (Se existe dor, semelhante),

Sicut dolor meus. (como a minha dor).

Attendi-te, Attendi-te (atente, atente...),

Si est dolor, similis (Se existe dor, semelhante)

Sicut dolor meus (como a minha dor).

As Marias Beús (três) respondem heus!, heus!, heus!, Dominus Salvator Nostri (Nosso Senhor Salvador).

Heus - (olha)

(extraído da partitura de 02-4-49 de Claro Henrique de Moraes, em poder de sua filha dona Djanira Cuoco - na pequena cidade de Joanópolis, interpretado por Maria Lucia Alexandre - verônica por mais de trinta anos)

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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