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Recordações de 1932 | Estância Turística de Joanópolis - SP

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Recordações de 1932
História
Enviado por Valter Cassalho   
Sex, 09 de Julho de 2010 00:00

juliamacdonallP/ Julia Holland Macdonell
Falecida em 22/06/2009 aos 92 anos em Joanópolis-SP

Ao celebrar a data Nove de Julho, que todos sabem que é feriado, mas poucos sabem por que, lembrei-me da cidade de São Paulo durante os três meses da revolução que não vingou mas acabou mudando o Brasil. São lembranças dos meus 15 anos.

No dia 23 de maio de 1932 soldados do exército federal assassinaram quatro jovens paulistanos (Martins, Miragaia, Drausio e Camargo) cujo crime era terem se demonstrado a favor da Constituição. No mesmo dia, numa esquina da Praça da Republica onde tombaram, ergueu-se uma tosca cruz. No dia seguinte o lugar virou santuário concorrido pelo povo. Fui ver. Os soldados se abstiveram de atacar os peregrinos. Estava lançado o movimento MMDC, a revolta do Estado de São Paulo contra a ditadura de Getúlio Vargas.

É engano pensar que foi um movimento da elite. A cidade toda participou e todas as classes se irmanaram. Todos, ricos e pobres, brasileiros natos e estrangeiros residentes na cidade. Nossa querida Capital, menor e muito mais bonita naquela época.

Meu pai, Charles Barnsley Holland, freqüentava o Anglo-American Club, e passava por lá diariamente ao sair de seu escritório na Rua 15 de Novembro. Contou-nos um dia que o cônsul inglês, o saudoso Arthur Abott, foi flagrado ao dizer: "Nós precisamos ganhar!"

A Companhia Singer colocou as máquinas de costura de seu mostruário ao serviço das senhoras americanas que queriam costurar camisas e pijamas para os soldados. Mamãe participava do grupo de costureiras e passava duas ou três tardes por semana na loja da Rua das Palmeiras. Nos outros dias costurava em casa, ou cortava e enrolava ataduras na mesa de jantar. Nisto eu ajudava, pois não tinha habilidade manual para fazer tricô, como a Vovó e a irmãzinha Mary. Vovó tricotava sem parar. Todas as mulheres idosas e muitas das jovens tricotavam malhas e meias. Fez muito frio no inverno de 1932.

Meu irmão George e um filho de ingleses, Arthur Reeves, se alistaram no exército como mensageiros. Andavam juntos, montados em suas motos. Viajavam entre Cunha, na divisa com Rio de Janeiro pela estrada velha, e as outras cidades do Estado. Corriam dia e noite, cobertos de pó, pois eram poucas as estradas pavimentadas e os serviços de correio e rádio eram precários. Meu irmão Harold participava de uma organização de voluntários da retaguarda. Coordenavam o movimento das tropas que cuidavam da segurança da cidade.

Os guardas-noturnos se alistaram no recém-formado exercito. Em todos os bairros, donos de casa prestavam serviço voluntário, cuidando de suas casas e suas famílias. A turma do papai cuidava dos Jardins, entre meia noite e três da madrugada. Reuniam-se em nossa casa às 11.30h, um alemão com seu cachorro de raça, um italiano moço e alegre e papai com nosso pequeno vira-latas. Tomavam uísque e depois saíam compenetrados, cada um com sua bengala. Bons tempos, quando uma bengala era a única arma necessária! Não aconteceu nenhum roubo nos Jardins nos três meses da revolução.

Os carteiros do correio central se alistaram. Os escoteiros foram substituí-los, entre eles nosso irmão menor, Robert virou carteiro. Os meninos andavam de bicicleta ou de bonde. Houve um tumulto no começo dos trabalhos, pois os meninos encontraram uma sala cheia de cartas não entregues, algumas cobertas com a poeira de até 20 anos. No afã inocente de cumprir o dever, as entregavam nos endereços antigos. Noivados desfeitos, mortes, perdas de emprego, contas não pagas, um alvoroço!

Todas as noites ficávamos atentos ao único rádio da casa para ouvir as últimas notícias, que sempre começavam com o refrão do "Trem Blindado do Chuchu". O povo todo contribuía para o bem dos soldados e feridos, desde as grandes tecelagens ao mais humilde dos doadores. Registrava-se tudo. Fiquei comovida ao escutar "Menina Tal, 3 ovos recebidos." Foi pelo rádio que ficávamos sabendo do drama dos municípios do interior. Foram muitos os mortos e feridos, pouca a munição, poucos os meios de transporte. Tremíamos de pena, pois os recursos se concentravam na Capital.
Comida não faltava, porque grande parte do interior era zona rural. Lembro-me de 1932 como o ano dos morangos. Os melhores seriam exportados para Rio de Janeiro, e como era impossível enviá-los até lá, a cidade de São Paulo os consumia. Morangos aqueles, plantados em pequenos sítios, sem agrotóxicos, grandes, doces e baratos com nunca mais vimos.

A Santa Casa recebia a maioria dos feridos. Os hospitais particulares também reservaram alas. A escola e universidade Mackenzie entregou seu ginásio como hospital de campanha. Muitas alunas se apresentaram como enfermeiras. A sra. Dorothy Warren, esposa do médico irlandês dr. Warren, comprava uma cesta de verduras todos os dias no mercado central e mandava suas Girl Guides (Bandeirantes) entrega-las no Mackenzie. Participei deste serviço.

Esperávamos. Algum outro Estado iria se juntar a nós, Minas Gerais certamente. Talvez algum Estado do sul. Mas o tempo se esgotava e uma noite, no aniversário de algum membro da família, entre quarenta ou mais, avós, tios e primos, papai teve a temeridade de dizer que não poderíamos ganhar a guerra. Por pouco, não foi linchado. A tia avó Eliza avançou sobre ele com seu leque. Mas ele estava certo. Passaram-se muitos anos até a renovação da democracia.

Na madrugada do dia 1º de outubro acordei assustada. Vi um soldado barbudo, coberto de poeira vermelha sentado sobre minha cama. Soltei um grito de pavor. Depois vi, em pé, minha mãe sorridente ao lado dele. Envolvi-me nos braços do estranho; era meu irmão. -Feliz aniversário Julinha, a guerra está se acabando.
Pena - seria tudo em vão?

O tempo passou; a maioria dos soldados descansa. A corrupção do tempo do Getúlio foi pequena, quase irrelevante, comparada com o drama dos dias de hoje. No coração dos paulistas o ideal da liberdade cívica ainda vive. Precisamos de uma nova reviravolta. Que venha logo, mas que seja pacifica.

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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