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Caminho da Roça | Estância Turística de Joanópolis - SP

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Caminho da Roça
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Enviado por Valter Cassalho   
Seg, 28 de Setembro de 2009 19:27
Dias desse, táva eu cá sentado, meio que urubuservando a vida passá e eis que passou um carrão desses bonito, pela porta da minha casa, com um tar sujeito de zóio cumprido na minha tapera, meio que querendo escafunchar arguma coisa. Como todo bão caipira educado já dei logo com a mão, o moço fez um revorteio com o carro e foi apeando. O sujeito era gordo, viçoso, parecia boa gente, meio grã-fino, mas como eu nunca tive vergonha de gente finória já fui convidando o moço a portá um pouco.

O moço já foi logo sortando as trava da língua, dizendo interessado em piá umas terras por estas bandas, coisa de uns 30 litros de chão.

A prosa tava indo meio que a trancos e barrancos, pra mode que a gente da cidade grande tem um jeito complicado de falar as coisas e são dífici de entendê o povo da roça. Meio que andando e desandando mandei ele rumá a riba do espigão que um dito cujo tava a fim de vender as terras.

Expliquei pro moço que a vida aqui era boa dimais e que não encafifasse com o jeito nosso, que não fizesse mesura e nem lisura e fosse logo desembuchando a conversa pro dono da terra e já falasse logo de cara que tinha o mio na mão pra piá as terrinhas.

Ô seu moço, falar a verdade, o tar sujeito parecia quase não entender o que eu falava, malemá compreendia as meadas da conversa. Quase perguntei pra ele se era estrangeiro, mas deixei pra lá, afinar bisbilhotar a vida alheia não é coisa de educação.

Tornei a explicá pro moço que tinha sim uma chacrinha a venda, de um conhecido meu, que sempre vinha pra cidade num cavalo tordio e passava aqui pra toma uma marvada. Falei também que a vizinhança era boa dimais, e que nestas bandas não tinha sujeito garganta, nem de gente incherida, lambeta ou soberba.

E a prosa tava espichando, e o dito cujo quieto, de zóio arregalado, meio que fidele escuitava a prosa desse caipira. Cramei pra ele prestá atenção na hora de comprar a chacrinha pra ver se não tinha muita tigüera e se o zóio d'água tava sobejando, pra mode que urtimamente as vertente andam meio que miserano água e muita já sorveteu da terra.

Disse ainda que antes de comprar as terra campeasse mais um pouco até achá uma que ornasse com o gosto dele.

Ofereci um café de garapa pro dito cujo, mais já fui avisando pra não tomá muito, pra não destemperá a viola. Falei também que tem uns terreno que é um balaio de gato e umas herança que são angu de caroço, inclusive tinha a terra do vizinho que bateu coa's deiz por estes dias, mas os herdeiros eram bicho feio pra mexer, o filho mais velho da turma era um sujeitinho carniça e arcaide, vivia com o caco cheio cercando frango pelas estradas, que esse nem convinha bulir.

O outro vizinho tinha as terras muito ruim, pirambeira por todo lado, nem com catiça arrumava comprador, forante que tinha uns herdeiro tudo coió pro meio, uma gente esquisita que as vezes tinha finiquito e fazia um forfé no bairro, já fui avisando pra mode num chorá pitanga depois, porque depois toma umas fubecada e vem falá que a gente não abriu o zóio. Mandei o sujeito sartá fora dessa.

O jeito foi indicar a chacrinha que tinha falado desde o começo, mandei o sujeito rumá pra dito caminho, as direta e procurá o dono das terras pra vê se dava ou não negócio. O moço todo educado despediu de mim, pegô na mão, agradeceu, subiu no carro. Mas num entendi uma coisa, ao invéis de rumá pra chacrinha, catô o carro e foi embora no sentido da cidade. Fiquei cá eu sozinho, matutando, será que falei arguma coisa que o moço não entendeu? Bem, esta gente da cidade grande, tem uma modera muito diferente da gente. Deixa pra lá.

 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.

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